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Quanto custa uma falta: o cálculo do no-show que quase nenhuma clínica faz

8 min de leitura · atualizado em 04/09/2026

Cadeira de atendimento vazia vista pelo vidro e tela de agenda com buraco no dia

Quanto uma clínica perde por mês com faltas de pacientes?

A perda mensal com faltas é o resultado de quatro números multiplicados: quantidade de consultas agendadas no mês, taxa de falta medida na sua agenda, margem de contribuição de uma consulta e a parcela dos horários que você não conseguiu reocupar. Em fórmula: perda mensal igual a consultas agendadas, vezes taxa de falta, vezes (1 menos taxa de reocupação), vezes margem de contribuição por consulta.

O que a falta tira de você é a margem de contribuição daquele atendimento, ou seja, o valor da consulta menos imposto, taxa de cartão e custo variável. O custo fixo do consultório continua correndo com o horário vazio, e por isso ele não entra nessa multiplicação. No exemplo desenvolvido abaixo, uma agenda de 180 consultas por mês, com 12% de falta e 25% de reocupação, perde R$ 4.993 por mês e cerca de R$ 59.900 por ano. Os números são ilustrativos. A sua taxa de falta, você vai medir na terceira seção deste texto.

A conta, com números de exemplo

Suponha um consultório particular que atende 20 dias por mês, 6 horas por dia, com consultas de 40 minutos. Isso dá 1,5 consultas por hora, 9 por dia, 180 consultas agendadas no mês. A consulta custa R$ 350 para o paciente. Sobre ela incidem 6% de imposto e 2,5% de taxa de cartão, e o custo variável é de R$ 12.

Etapa Cálculo Resultado
Margem de contribuição da consulta R$ 350 menos 8,5% menos R$ 12 R$ 308,25
Consultas agendadas no mês 1,5 por hora × 6h × 20 dias 180
Taxa de falta medida 12% 21,6 faltas
Horários reocupados pela lista de espera 25% de 21,6 5,4
Horários perdidos de fato 21,6 menos 5,4 16,2
Perda mensal 16,2 × R$ 308,25 R$ 4.993,65
Perda anual R$ 4.993,65 × 12 R$ 59.923,80

Troque cada linha pelos seus valores. Se você ainda não tem a margem de contribuição da consulta fechada, ela sai da mesma estrutura de custo usada em como calcular o preço da consulta particular. Em clínica odontológica, calcule por procedimento e não por consulta, porque o tempo de cadeira varia muito, e o método está em margem de contribuição por procedimento.

A segunda camada da conta

Existe um efeito que essa multiplicação não captura. Quando a falta é crônica, você dimensionou a estrutura para uma capacidade que nunca acontece. Aluguel, folha e software foram contratados para 180 atendimentos e a clínica entrega 158. O custo fixo por atendimento realizado sobe, e o preço que você calculou sobre a capacidade cheia passa a não cobrir a estrutura. Por isso a capacidade que entra no cálculo de preço precisa ser a capacidade realizada, com a falta já descontada. Quem calcula preço sobre a agenda teórica financia o próprio consultório com o próprio salário, tema do post sobre o DRE da clínica.

"Falta um ou outro, não é significativo"

Teste essa frase com o seu próprio número. Uma falta por dia útil, em 20 dias, dá 20 faltas por mês. No exemplo acima, com a mesma margem de R$ 308,25 e sem nenhuma reocupação, são R$ 6.165 por mês e R$ 73.980 por ano. Uma falta por dia é exatamente o volume que passa despercebido, porque ela nunca aparece como um evento, ela aparece como um horário que "deu uma folga".

Faça o teste ao contrário também. Quanto você precisaria aumentar o preço da consulta para recuperar essa perda sem mexer em mais nada? No exemplo, R$ 4.993 divididos por 158 atendimentos realizados dão R$ 31,53 por consulta, um aumento de 9%. É um aumento que o mercado nota. A falta não é notada por ninguém.

O que a literatura mostra, e por que ela não serve de meta para você

Existem estudos brasileiros que mediram absenteísmo com amostra grande e metodologia declarada. Todos eles são de serviço público, com consulta gratuita para o paciente, o que muda completamente o incentivo de comparecer. Use esses números como evidência de que o fenômeno é grande. Eles não servem de referência do que seria normal na sua clínica particular.

  • Em uma unidade básica de saúde de Pelotas (RS), a prevalência de absenteísmo foi de 19,2% (IC95% 17,7 a 20,8) em 3.131 consultas agendadas entre julho de 2016 e abril de 2017. Fonte: Silveira GS e col., Rev Bras Med Fam Comunidade, 2018;13(40) (texto do estudo).
  • Em um hospital universitário de Catanduva (SP), a taxa de absenteísmo ambulatorial foi de 20,06% em 2023, com 9.193 faltas em 45.825 consultas agendadas, variando de 16,90% em cardiologia e urologia a 33,67% em infectologia. Fonte: Baptista ABQ e col., Cuid Enferm, 2024;18(2):177-183 (PDF do artigo).
  • Em um município de pequeno porte da Região das Hortênsias (RS), no primeiro semestre de 2023, o absenteísmo foi de 13,1% em consultas especializadas (1.306 faltas em 9.935 agendamentos) e de 2,1% em exames. Fonte: Zini TM, Bueno D, Saberes Plurais, 2025;9(2):e151127 (artigo).

Três coisas saltam desses dados e valem para qualquer agenda. A taxa varia muito por especialidade dentro do mesmo prédio, com a mesma equipe e o mesmo sistema. A taxa de falta em exame é muito menor que em consulta. E nenhum desses números diz qual é a sua. Não existe taxa de no-show do setor privado brasileiro publicada com metodologia e amostra que sustente comparação. Quem te oferece um percentual redondo de mercado está chutando.

Como medir a sua taxa em 30 dias

Antes de definir a regra, defina o vocabulário. Sem isso, duas pessoas contam a mesma agenda e chegam a números diferentes.

  • Falta: o paciente não compareceu e não avisou.
  • Cancelamento tardio: avisou dentro da janela em que você já não consegue reocupar (defina a janela, por exemplo 24 horas).
  • Cancelamento com antecedência: avisou fora dessa janela.
  • Remarcado: mudou de data e a nova data está na agenda.

A taxa de falta usa no numerador só a primeira categoria. Você pode calcular também uma taxa de horário ocioso, que soma falta e cancelamento tardio, porque as duas produzem cadeira vazia. Meça as duas e não misture.

O registro cabe em seis colunas: data, horário, paciente, tipo de atendimento (primeira consulta ou retorno), origem (convênio, particular, indicação, anúncio) e desfecho, escolhido da lista de quatro categorias acima. Nada de campo livre. Ao fim de 30 dias, some.

O que fazer com o número segmentado

O número geral serve para dimensionar a perda. O número segmentado serve para agir. Quebre a taxa por:

  1. Primeira consulta contra retorno. Se a primeira consulta falta mais, o problema está entre o agendamento e o comparecimento, o que aponta para o script de atendimento.
  2. Antecedência do agendamento. Compare a taxa de quem marcou para daqui a 3 dias com a de quem marcou para daqui a 30. Se houver diferença, você tem uma variável de agenda para ajustar.
  3. Dia da semana e horário. Segunda de manhã e sexta no fim da tarde costumam se comportar de forma diferente. Confirme na sua agenda.
  4. Origem do paciente. Lead de anúncio, indicação e paciente de base não faltam igual.
  5. Convênio contra particular. Essa diferença muda a conta de convênio ou particular, porque ocupação real entra naquela comparação.
  6. Reincidência. Quantos por cento das faltas vêm de pacientes que já faltaram antes? Esse recorte define a política de reincidente.

Com esses seis cortes, você para de tratar no-show como fatalidade e passa a tratar como processo com pontos de falha identificáveis. O que fazer com cada ponto está em como reduzir o no-show na clínica.

O indicador que quase ninguém acompanha

Junto com a taxa de falta, meça a taxa de reocupação: dos horários que vagaram, quantos por cento foram preenchidos por outro paciente no mesmo dia. Esse é o número que mais rápido derruba a perda, porque ele não depende do comportamento do paciente que faltou, ele depende da sua lista de espera funcionar. No exemplo do começo, subir a reocupação de 25% para 60% derruba a perda de R$ 4.993 para R$ 2.663 por mês, sem mexer em uma vírgula da taxa de falta.

Como a Atomia resolve isso

No mês 1 medimos a sua taxa de falta, a taxa de reocupação e a perda em reais, segmentadas por origem e por tipo de atendimento. No mês 2 definimos a meta dos dois indicadores. A execução muda processo de confirmação e lista de espera, com reunião de indicadores a cada 15 dias. No dia 45 você compara o mesmo número da primeira medição.

Próximo passo

Isso vale para a sua clínica?

Descobrir custa trinta minutos de conversa. O diagnóstico completo é o primeiro mês de contrato.

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