Sociedade entre médicos: como dividir lucro quando um atende mais que o outro

Como dividir lucros e despesas em uma sociedade entre médicos
Existem três modelos de rateio em uma sociedade médica. Por participação societária, em que o resultado é dividido na proporção das quotas. Por produção, em que cada sócio fica com o que gerou, menos os custos diretos do próprio atendimento, menos a parte que lhe cabe da despesa comum. E o híbrido, em que uma fatia do resultado é dividida por quota e o restante pela produção de cada um. Os três são legítimos e produzem números bem diferentes na mesma clínica.
A escolha depende de uma pergunta só: o que o negócio remunera. Se a clínica vive da agenda pessoal de cada sócio, produção pesa. Se a clínica tem marca, estrutura e fluxo próprio de paciente, participação pesa. Antes de escolher, separe as duas remunerações que vivem misturadas: trabalho é pró-labore e capital é distribuição de lucro. Metade das brigas de sociedade médica se resolve só com essa separação, explicada em pró-labore do médico sócio. O Código Civil trata do tema nos arts. 1.007 e 1.008, a regra padrão é a proporção das quotas quando o contrato nada dispõe, e o contrato pode estabelecer critério diferente. Distribuição desproporcional tem efeito tributário e societário, então feche o desenho com o seu contador e o seu advogado.
A mesma clínica nos três modelos
Os números abaixo são um exemplo ilustrativo, montado só para mostrar a mecânica. Troque pelos seus antes de decidir qualquer coisa.
Suponha uma clínica com dois sócios, 50% das quotas para cada um. No mês, a receita foi de R$ 90.000. O Dr. A produziu R$ 60.000 e o Dr. B produziu R$ 30.000. Os custos variáveis do atendimento de cada um (material, exame terceirizado, repasse) foram R$ 9.000 para A e R$ 4.500 para B. A despesa comum, que existe com a agenda cheia ou vazia, somou R$ 40.000. O resultado do mês é R$ 36.500.
| Modelo | Dr. A | Dr. B | Como se calcula |
|---|---|---|---|
| Por participação | R$ 18.250 | R$ 18.250 | Resultado dividido pela proporção das quotas |
| Por produção | R$ 31.000 | R$ 5.500 | Produção menos custo direto menos metade da despesa comum |
| Híbrido 70/30 | R$ 22.508 | R$ 13.992 | 30% do resultado por quota e 70% pela margem gerada |
A diferença entre o melhor e o pior cenário para o Dr. B, na mesma clínica e no mesmo mês, é de R$ 12.750. É por isso que esse assunto precisa estar escrito antes, e não decidido no mês em que a diferença aparecer.
Como cada conta foi feita
Por participação. R$ 90.000 de receita, menos R$ 13.500 de custos variáveis somados, menos R$ 40.000 de despesa comum, resulta em R$ 36.500. Dividido meio a meio, dá R$ 18.250 para cada.
Por produção. Dr. A: R$ 60.000 menos R$ 9.000 de custo direto menos R$ 20.000 de despesa comum, resulta em R$ 31.000. Dr. B: R$ 30.000 menos R$ 4.500 menos R$ 20.000, resulta em R$ 5.500. Repare que o Dr. B quase não sobrevive a este modelo, porque a despesa comum foi rateada meio a meio e ele produz metade.
Híbrido. Trinta por cento do resultado (R$ 10.950) vai por quota, R$ 5.475 para cada. Os outros setenta por cento (R$ 25.550) vão pela margem de contribuição que cada um gerou: R$ 51.000 de A e R$ 25.500 de B, ou seja, dois terços e um terço. A fica com R$ 17.033 e B com R$ 8.517. Somando as duas parcelas, A recebe R$ 22.508 e B recebe R$ 13.992.
O ponto que decide a briga: a despesa comum
O modelo por produção só é justo quando o rateio da despesa comum é justo, e é aí que quase toda sociedade escorrega. Dividir tudo meio a meio penaliza quem tem agenda menor. Dividir tudo por produção penaliza quem constrói a estrutura. O caminho que costuma resolver é separar a despesa em três blocos com critérios diferentes.
| Bloco | Exemplos | Critério de rateio |
|---|---|---|
| Estrutura | Aluguel, condomínio, software, contador, seguros | Igual entre os sócios ou por sala ocupada |
| Uso | Recepção, material de escritório, energia, limpeza | Por número de atendimentos ou horas de agenda |
| Crescimento | Marketing, comercial, campanhas | Por origem do paciente novo gerado |
O bloco de crescimento é o mais mal resolvido. Quando o marketing é rateado meio a meio, mas gera paciente para uma especialidade só, o sócio de fora paga a conta da agenda do outro por meses sem perceber. A correção é rastrear a origem do paciente novo e ratear proporcional. Se você não consegue rastrear origem hoje, esse é o primeiro processo a montar, e ele aparece na leitura de indicadores de clínica.
O ajuste que resolve sem trocar de modelo
Antes de mudar a divisão do lucro, ajuste o pró-labore. Pró-labore remunera trabalho, e trabalho diferente pode ser remunerado de forma diferente sem mexer nas quotas. Quem atende mais, coordena a equipe ou responde pelo comercial recebe pró-labore maior. O que sobra depois disso é lucro, e o lucro é dividido pelo critério do contrato.
Esse desenho tem uma vantagem prática grande: ele separa o mês bom do mês ruim. Se o Dr. A reduzir a agenda no ano que vem para fazer uma especialização, o pró-labore dele cai e a divisão do lucro continua estável. Sem essa separação, cada oscilação de agenda vira uma renegociação de sociedade.
Combine antes de aplicar. Enquadramento tributário, forma societária e formato de retirada mudam a conta, e essa parte é do contador.
"A gente divide meio a meio e está resolvido"
Meio a meio funciona bem enquanto os dois produzem parecido, dedicam horas parecidas e enxergam esforço parecido no outro. O acordo não quebra no dia em que a diferença aparece. Ele quebra uns oito meses depois, quando a diferença já foi contada mentalmente por um dos dois e nunca foi dita em voz alta.
Faça o teste do número. Abra os últimos seis meses e calcule, por sócio, três colunas: receita gerada, custo direto do próprio atendimento e horas de agenda ocupadas. Se as três colunas estiverem próximas, meio a meio está correto e vocês acabaram de ganhar tranquilidade documentada. Se estiverem distantes, você já sabe que existe uma conversa pendente, e é melhor tê-la com a planilha na mesa do que no meio de um desentendimento sobre outra coisa.
Escreva o critério escolhido no acordo de sócios, com a fórmula, a periodicidade da apuração e a regra de revisão anual. Como fazer isso está em acordo de sócios em clínica. Critério que mora só na memória dos dois muda de forma silenciosa, e cada um lembra da versão que lhe favorece.
Nos últimos seis meses, quanto cada sócio da sua clínica gerou de margem, depois do custo direto do próprio atendimento?
Como a Atomia resolve isso
No mês 1 abrimos a receita e o custo por sócio, com o histórico que existir, e mostramos o que cada modelo de rateio produziria na sua clínica. No mês 2 definimos o critério e a meta com os dois sócios na mesma mesa. A execução fica com o time e a leitura é a cada 15 dias. Na reunião do dia 45 a apuração volta no mesmo formato.