Gestão

Sociedade entre médicos: como dividir lucro quando um atende mais que o outro

8 min de leitura · atualizado em 04/09/2026

Monitor com divisão de lucro em rosca e duas xícaras sobre a mesa

Como dividir lucros e despesas em uma sociedade entre médicos

Existem três modelos de rateio em uma sociedade médica. Por participação societária, em que o resultado é dividido na proporção das quotas. Por produção, em que cada sócio fica com o que gerou, menos os custos diretos do próprio atendimento, menos a parte que lhe cabe da despesa comum. E o híbrido, em que uma fatia do resultado é dividida por quota e o restante pela produção de cada um. Os três são legítimos e produzem números bem diferentes na mesma clínica.

A escolha depende de uma pergunta só: o que o negócio remunera. Se a clínica vive da agenda pessoal de cada sócio, produção pesa. Se a clínica tem marca, estrutura e fluxo próprio de paciente, participação pesa. Antes de escolher, separe as duas remunerações que vivem misturadas: trabalho é pró-labore e capital é distribuição de lucro. Metade das brigas de sociedade médica se resolve só com essa separação, explicada em pró-labore do médico sócio. O Código Civil trata do tema nos arts. 1.007 e 1.008, a regra padrão é a proporção das quotas quando o contrato nada dispõe, e o contrato pode estabelecer critério diferente. Distribuição desproporcional tem efeito tributário e societário, então feche o desenho com o seu contador e o seu advogado.

A mesma clínica nos três modelos

Os números abaixo são um exemplo ilustrativo, montado só para mostrar a mecânica. Troque pelos seus antes de decidir qualquer coisa.

Suponha uma clínica com dois sócios, 50% das quotas para cada um. No mês, a receita foi de R$ 90.000. O Dr. A produziu R$ 60.000 e o Dr. B produziu R$ 30.000. Os custos variáveis do atendimento de cada um (material, exame terceirizado, repasse) foram R$ 9.000 para A e R$ 4.500 para B. A despesa comum, que existe com a agenda cheia ou vazia, somou R$ 40.000. O resultado do mês é R$ 36.500.

Modelo Dr. A Dr. B Como se calcula
Por participação R$ 18.250 R$ 18.250 Resultado dividido pela proporção das quotas
Por produção R$ 31.000 R$ 5.500 Produção menos custo direto menos metade da despesa comum
Híbrido 70/30 R$ 22.508 R$ 13.992 30% do resultado por quota e 70% pela margem gerada

A diferença entre o melhor e o pior cenário para o Dr. B, na mesma clínica e no mesmo mês, é de R$ 12.750. É por isso que esse assunto precisa estar escrito antes, e não decidido no mês em que a diferença aparecer.

Como cada conta foi feita

Por participação. R$ 90.000 de receita, menos R$ 13.500 de custos variáveis somados, menos R$ 40.000 de despesa comum, resulta em R$ 36.500. Dividido meio a meio, dá R$ 18.250 para cada.

Por produção. Dr. A: R$ 60.000 menos R$ 9.000 de custo direto menos R$ 20.000 de despesa comum, resulta em R$ 31.000. Dr. B: R$ 30.000 menos R$ 4.500 menos R$ 20.000, resulta em R$ 5.500. Repare que o Dr. B quase não sobrevive a este modelo, porque a despesa comum foi rateada meio a meio e ele produz metade.

Híbrido. Trinta por cento do resultado (R$ 10.950) vai por quota, R$ 5.475 para cada. Os outros setenta por cento (R$ 25.550) vão pela margem de contribuição que cada um gerou: R$ 51.000 de A e R$ 25.500 de B, ou seja, dois terços e um terço. A fica com R$ 17.033 e B com R$ 8.517. Somando as duas parcelas, A recebe R$ 22.508 e B recebe R$ 13.992.

O ponto que decide a briga: a despesa comum

O modelo por produção só é justo quando o rateio da despesa comum é justo, e é aí que quase toda sociedade escorrega. Dividir tudo meio a meio penaliza quem tem agenda menor. Dividir tudo por produção penaliza quem constrói a estrutura. O caminho que costuma resolver é separar a despesa em três blocos com critérios diferentes.

Bloco Exemplos Critério de rateio
Estrutura Aluguel, condomínio, software, contador, seguros Igual entre os sócios ou por sala ocupada
Uso Recepção, material de escritório, energia, limpeza Por número de atendimentos ou horas de agenda
Crescimento Marketing, comercial, campanhas Por origem do paciente novo gerado

O bloco de crescimento é o mais mal resolvido. Quando o marketing é rateado meio a meio, mas gera paciente para uma especialidade só, o sócio de fora paga a conta da agenda do outro por meses sem perceber. A correção é rastrear a origem do paciente novo e ratear proporcional. Se você não consegue rastrear origem hoje, esse é o primeiro processo a montar, e ele aparece na leitura de indicadores de clínica.

O ajuste que resolve sem trocar de modelo

Antes de mudar a divisão do lucro, ajuste o pró-labore. Pró-labore remunera trabalho, e trabalho diferente pode ser remunerado de forma diferente sem mexer nas quotas. Quem atende mais, coordena a equipe ou responde pelo comercial recebe pró-labore maior. O que sobra depois disso é lucro, e o lucro é dividido pelo critério do contrato.

Esse desenho tem uma vantagem prática grande: ele separa o mês bom do mês ruim. Se o Dr. A reduzir a agenda no ano que vem para fazer uma especialização, o pró-labore dele cai e a divisão do lucro continua estável. Sem essa separação, cada oscilação de agenda vira uma renegociação de sociedade.

Combine antes de aplicar. Enquadramento tributário, forma societária e formato de retirada mudam a conta, e essa parte é do contador.

"A gente divide meio a meio e está resolvido"

Meio a meio funciona bem enquanto os dois produzem parecido, dedicam horas parecidas e enxergam esforço parecido no outro. O acordo não quebra no dia em que a diferença aparece. Ele quebra uns oito meses depois, quando a diferença já foi contada mentalmente por um dos dois e nunca foi dita em voz alta.

Faça o teste do número. Abra os últimos seis meses e calcule, por sócio, três colunas: receita gerada, custo direto do próprio atendimento e horas de agenda ocupadas. Se as três colunas estiverem próximas, meio a meio está correto e vocês acabaram de ganhar tranquilidade documentada. Se estiverem distantes, você já sabe que existe uma conversa pendente, e é melhor tê-la com a planilha na mesa do que no meio de um desentendimento sobre outra coisa.

Escreva o critério escolhido no acordo de sócios, com a fórmula, a periodicidade da apuração e a regra de revisão anual. Como fazer isso está em acordo de sócios em clínica. Critério que mora só na memória dos dois muda de forma silenciosa, e cada um lembra da versão que lhe favorece.

Nos últimos seis meses, quanto cada sócio da sua clínica gerou de margem, depois do custo direto do próprio atendimento?

Como a Atomia resolve isso

No mês 1 abrimos a receita e o custo por sócio, com o histórico que existir, e mostramos o que cada modelo de rateio produziria na sua clínica. No mês 2 definimos o critério e a meta com os dois sócios na mesma mesa. A execução fica com o time e a leitura é a cada 15 dias. Na reunião do dia 45 a apuração volta no mesmo formato.

Próximo passo

Isso vale para a sua clínica?

Descobrir custa trinta minutos de conversa. O diagnóstico completo é o primeiro mês de contrato.

WhatsApp